“Não tem como explicar. Só vivendo o Círio para entender”. Foi o que me falaram assim que pisei em Belém os paraenses Gurgel e Amanda, guias responsáveis por minha estadia. Sempre soube da força da fé em Nossa Senhora de Nazaré na região, mas nunca imaginaria acompanhar de perto um dos maiores eventos católicos do mundo.
A história começou em 1700, quando o caboclo Plácido José de Souza encontrou a imagem de Nossa Senhora de Nazaré “naturalmente, no fim de outubro, há poucos passos ao sul da estrada do Maranhão, sobre pedras lodosas, à margem de um córrego onde o gado se saciava”. O registro foi feito por Dom Frei Evangelista, quinto bispo do Pará, em manuscrito ao Convento de Santo Antônio dos Capuchos, em Portugal. De lá para cá, a devoção por Nossa Senhora de Nazaré só cresceu e hoje ela é a padroeira do Pará e a Rainha da Amazônia.
O primeiro Círio aconteceu em oito de setembro de 1793 e culminou em 2017 com mais de 2,5 milhões de pessoas pelas ruas de Belém no domingo, oito de outubro. Os fiéis percorrem cerca de 3,6 quilômetros num percurso que sai da Catedral, na Cidade Velha, até a Praça Santuário de Nazaré. Outro evento de grande importância é a Transladação, no sábado à noite, e que faz o percurso inverso do Círio.
Minha adrenalina era tanta que resolvi emendar os dois: sai do hotel no sábado às 16 horas e retornei no domingo ao meio dia. A ideia era acompanhar os dois eventos e tudo que envolvia. Encontrei com os amigos do Foto Clube Grão Pará e do Urubuservando, dois grupos de fotógrafos da capital paraense, e ficamos pelo Ver-o-Peso, um grande mercado ao céu aberto, durante toda a madrugada.
Estava ali vivendo o Círio, conforme me falaram nos primeiros minutos de Belém. Por volta das duas e meia da manhã, algo fantástico começa: a peregrinação de joelhos. São centenas de fiéis que fazem todo o percurso agachados, rezando e agradecendo. Eles saem de madrugada para evitar o sol quente de Belém. A maioria recebe apoio de parentes e familiares; muitos vão sozinhos. Durante o percurso, papelões vão sendo colocados para a formação de um caminho. Também durante o cortejo, desconhecidos vão se ajudando. Nos primeiros passos de procissão, encontrei uma moça e um jovem, menor de idade. A todo instante, ela o chamava de filho. Já logo imaginei uma imagem de mãe e sua cria. Depois de sete horas de percurso, os encontrei na porta da Basílica. Ambos estavam extenuados. Depois de um longo abraço, a senhora se apresentou para o garoto, deu seu endereço e o convidou para um café. A solidariedade estava ali.
Outra vivência bem forte no Círio foi estar perto da corda que passou a fazer parte da festa em 1885, quando uma enchente alagou a orla no momento da procissão. Com isso, a berlinda (local onde fica a imagem da santa) ficou atolada e os cavalos não conseguiram puxá-la. Rapidamente, um comerciante emprestou uma corda e os fieis começaram a puxar a berlinda. Virou um ícone com 400 metros de comprimento e muita disputa para segurá-la. Os fieis dormem no chão do começo da procissão para chegar o mais próximo possível. São dezenas de peregrinos por metro quadrado.
É uma disputa na unha que pode assustar um desavisado. Homens e mulheres se empurram pelo mínimo espaço. Os físicos não podem compreender. Como cabem dezenas de pessoas em poucos centímetros? Os corpos se encaixam: o joelho de um se acopla na parte de trás do outro; uma cabeça encosta na nuca do da frente; quadris se ajeitam como peças de quebra-cabeça. Isso tudo acontece com os fiéis cantando, rezando, agradecendo e caminhando, claro. E, sem contar, com o calor: o bafo é tão grande que a lente da câmera fotográfica chega a embaçar. Dá para sentir o calor batendo no peito.
Jamais conseguirei explicar ou escrever a sensação de ser puxado por um fiel para o meio da corda pelo simples fato de eu precisar sentir o Círio – segundo suas próprias palavras. Talvez as imagens possam transmitir um pouco da experiência.
A equipe teve o apoio da SETUR/PA