A execução de três estudantes e o desaparecimento de outros 43 em Iguala, no estado mexicano de Guerrero, na noite entre 26 e 27 de setembro passado, trouxe à tona a surpreendente ligação do Estado com o crime organizado, fundamental para a perpetuação de ações violentas na região.
Da mesma forma, veio à luz, mais uma vez, a vulnerabilidade em que se encontra a maioria das pessoas frente a corrupção e a crueldade. Por outro lado, o cenário mostrou a capacidade de mobilização social do povo em Guerrero, que consolidou a Assembleia Nacional Popular para promover ações que pressionem as autoridades a revelar o paradeiro dos desaparecidos. Essa assembleia é formada por diversas outras organizações, sendo parte fundamental o grupo de alunos da escola normal rural Raúl Isidro Burgos, de Ayotzinapa, bem como o comitê das 43 famílias desoladas, que agora desenvolve um projeto de autonomia comunitária.
- Chilpancingo, Guerrero. Protesto pedindo a apresentação com vida dos 43 estudantes normalistas rurais de Ayotzinapa. Foto: Carlos Ogaz
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- 20 de novembro de 2014. Ato toma o aeroporto da Cidade do México para protestar por Ayotzinapa. Foto: Carlos Ogaz
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- Estudantes queimam o palácio do governo do Estado em repúdio à morte dos 43 normalistas de Ayotzinapa. Foto: Carlos Ogaz
Revolta Cotidiana
As vigorosas ações de pais e mães, apoiados pelos colegas dos estudantes desaparecidos, começaram na noite do episódio, às 23h, quando às pressas convocaram uma coletiva de imprensa para que todos soubessem do ataque armado. A ele se seguiu o segundo ataque dos criminosos, uma chuva de balas que poderia acuar os manifestantes. Pelo contrário, a reação foi ainda mais enfática.
Desde então os alunos tem se organizado diariamente e mobilizado as oito escolas normais públicas do estado, unidas em mais de uma frente: Frente Unido de Normales Públicas del Estado de Guerrero (FUNPEG), Coordinadora Estatal de Trabajadores de la Educación de Guerrero (CETEG), Coordinadora Regional de Autoridades Comunitarias-Policía Comunitaria (CRAC-PC), e também Unión de Pueblos y Organizaciones del Estado de Guerrero (UPOEG), que encabeçou as buscas pelos estudantes durante os primeiros meses.
A soma de forças desses movimentos gerou uma grande revolta popular, que inclui plantão permanente no centro de Chilpancingo, invasão de estações de rádio, liberação de pedágios em estradas privadas, expropriação de produtos e veículos de empresas multinacionais, sequestros de ônibus. Além de ações radicais simbólicas como a queima de escritórios de instituições governamentais e invasão de instâncias de Justiça do Estado. Em novembro de 2014, os manifestantes chegaram a invadir e bloquear as atividades do Aerporto de Acapulco.
As intervenções não são banais demonstrações de força, mas ações minuciosamente planejadas para que a luta não esmoreça – da subsistência alimentícia constantes boletins informativos. Os movimentos, por exemplo, buscam resolver o problema de mobilidade na região com a tomada de coletivos e bombas de combustível. E invadem temporariamente estações de rádio para transmitir informes políticos, combinar ações, fazer denúncias e exigências.
O valor simbólico de cada atividade tem grande importância, mas algumas ações são bastante diretas, como a queima de veículos de multinacionais e de uma viatura da polícia federal em frente ao palácio do governo de Guerrero, no dia 8 novembro. Foi uma resposta ao titular da Procuradoria Geral da República, Murilo Karam, que concluiu o caso do desaparecimento dos estudantes alegando que os corpos haviam sido encontrados incinerados em sacos de lixo. Omar Garcia, membro do comitê executivo estudantil da escola Ricardo Flores Magón, comentou que promoviam as ações para que “o governo recebesse uma mensagem clara de que vamos com tudo…estamos dispostos a tudo, a entrar em qualquer tipo de atividade, que sejam pacificas ou violentas, pouco importa”.
Para além do protesto pontual contra a violência que afetou os estudantes locais, as manifestações, cada vez mais abrangentes, enviam uma mensagem direta de mudança, de construção de espaços políticos tangencialmente diferentes que estão por emergir. Isso se reafirma com a recente criação de conselhos populares, feitos para superar a relação de subordinação, corrupção e morte que envolve a política tradicional.
O que a repressão quer calar
Se começou como exigência pela apresentação, com vida, dos jovens ausentes, hoje as mobilizações evoluíram para muito além disso. Familiares e professores tem afirmado desde novembro que o movimento se expandiu para reinvindicar mudanças nas estruturas políticas e econômicas que mantêm o narcotráfico no cerne do Estado.
Mas dificilmente se apagará a indignação dos familiares com a falta de seriedade com a qual o Estado conduziu simulações e montagens durante a investigação do crime. “Em vez de resolverem e aprofundarem as investigaçoes, o que fazem é ameaçar pais e quem mais se mobilizar”, diz Felipe de La Cruz, um dos porta-vozes do Comitê de Familiares de Ayotzinapa. “Peña Nieto está pensando de que maneira vai conseguir reprimir o povo a ponto de calar nossa voz, mas queremos dizer a ele que o momento é de ajuste de contas, que isso que fizeram com Guerrero e Ayotzinapa vai derrubar este governo maldito que mata nossos filhos”.
Em sua primeira invasão às ondas radiofónicas, Omar García mandou uma mensagem à repressão exercida sobre o movimiento: “Queremos dizer ao governo mexicano que pare de nos criminalizar e pare de criminalizar aqueles que se solidarizam com nossa causa ou qualquer outra causa social”.
“Não podemos viver no México sob esses regulamentos, essas leis que transformam em criminosos inocentes cordeiros e nós, os mais pobres, nos tratam como os piores lobos e as piores aves de rapina”.
Uma mãe de “uma das crianças agora desaparecidas”, com semanas de dor e sofrimento, expressou ao governo que não permitiriam “mais assassinatos, mais desaparecidos”. Agradeceu a solidariedade e informou da rede que se forma em torno deles, com milhares de pessoas em situação parecida, com familiares desaparecidos. “Estamos nos unindo em nossa luta. Se não podem com isso, e está claro que não podem, deixem o gabinete”.
Os estudantes endossam um discurso que planta a ruptura com o Estado mexicano. Pedro David, estudante de Ayotzinapa, membro do comité executivo estudantil, ergueu-se contra a repressão, que busca “apaziguar o movimiento”, pois “o governo está cansado de que nós, como povo, lhe digamos suas verdades, e que exijamos as contas das quais são responsáveis”. A voz juvenil e determinada afirmou que não bastava a licença do governador do estado, Angel Aguirre Rivero, e tampouco “a renuncia de um presidente. Queremos que todos caiam, porque são todos culpados, porque quando cair um sobe outro cachorro, outro porco igual a presidência”.
Os ares de mudança, exalados pela força da juventude, ressoaram por milhares de ouvidos receptores até a Praça da Constituição: “vamos criar um novo país, porque este tem que mudar. Por nossos companheiros desaparecidos, seguiremos na luta, não importa por quanto tempo. Esperamos contar com o apoio de vocês”.
O último a falar foi Omar Garcia, que reafirmou as intenções do movimento por “mudanças definitivas neste país. Convocamos as organizações sociais, os estudantes e camponeses, a toda a gente que reflete o que está acontecendo. Porque nós, estudantes de Ayotzinapa e familiares dos desaparecidos estamos determinados a dar cabo a suas instituições que não funcionam, a seu estado que não funciona”.
Conselhos Municipais Populares
Desde o fim de outubro de 2014, a Assembleia Nacional Popular instaurada na Escola Normal de Ayotzinapa decidiu tomar conta do maior número de ajuntamentos para pressionar o governo por justiça aos estudantes desaparecidos e assassinados. A nova etapa de luta inclui a construção dos primeiros Conselhos Municipais. Já são cinco, e se esperam muitos mais: Tlapa de Comonfort, Acapulco, San Luis Acatlán, Ayutla de los Libres e Tecoanapa, ocupando as regiões de Costa Chica, Montaña e Zona Centro.
Conselhos regidos, segundo o estudante Agustín Flores Vázquez, “com a mesma autonomia de uma vila. Não se trata de um mês ou dois, até que voltemos a xingar os mesmos superiores. O conselho tem que tomar as rédeas dos ajuntamentos, as rédeas de seu povo”.
Os membros do Conselho são escolhidos pelas comunidades através de discussões, com os prós e contras dos candidatos. Os estudantes de Ayotzinapa não escondem o entusiasmo. “Acreditamos e estamos seguros de que vai funcionar, porque o próprio povo está exercendo seu poder. Inclusive o já foram expulsos – o poder municipal não existe mais”.
Na noite de 26 de setembro começou um processo que os estudantes acreditam em longo-prazo, de grandes mudanças na estrutura da organização dos povoados. Agustín Flores é porta-voz dessa ideia em uma reunião da assembleia. “Queremos o poder com o povo, feito pelo povo e trabalhado por ele. Por isso é normal que a gente peça para que livrem do poder do Estados. Não dependam dele para nada. Vocês mesmos podem fazer sua segurança, sua polícia, sua saúde, e não precisamos de uma pessoa do Estado para isso. A autonomia se conquista lutando”.